Por Marília Martinelli Daumas*
Na construção civil, os custos que mais corroem o resultado nem sempre aparecem na planilha. Retrabalhos, falhas de comunicação, esperas improdutivas e decisões desalinhadas. Em um ambiente de margens estreitas, cada pequeno desvio de produtividade pode se transformar em perda real de lucro. O problema é que, por não serem registrados diretamente no orçamento, esses impactos passam despercebidos, camuflados no fluxo diário da execução.
Grande parte desses custos têm origem em fatores gerenciais. Retrabalhos, por exemplo, decorrem muitas vezes de falhas no controle de revisões de projeto, ausência de compatibilização entre disciplinas ou instruções imprecisas no canteiro. Um erro aparentemente simples, como a execução de uma forma fora de medida, pode gerar um encadeamento de perdas: demolição, nova concretagem, horas extras e consumo duplicado de insumos. Estudos do setor estimam que o retrabalho pode representar até 10% do custo total da obra, valor suficiente para eliminar a margem de ganhos em empreendimentos de médio porte.
A comunicação é outro ponto crítico. A ausência de um fluxo claro de informações entre equipes de engenharia, planejamento e execução leva a tomadas de decisão baseadas em percepções, não em dados. Isso resulta em instruções divergentes, cronogramas inconsistentes e alocação incorreta de recursos. Em obras complexas, onde múltiplos contratados e fornecedores interagem, a falta de atualização tempestiva de documentação pode paralisar frentes inteiras de trabalho. O custo desse tempo ocioso raramente é mensurado, mas está presente nos desvios acumulados de prazo e produtividade.
Há também desperdícios em função de logística. Processos pouco planejados, equipamentos sucateados ou com problemas de manutenção geram “perdas invisíveis”. São minutos de espera, deslocamentos desnecessários, retrabalhos pequenos e sobrecargas não percebidas, que, somados, corroem eficiência e margem. A maior parte dessas perdas é evitável, desde que os dados de campo sejam coletados, analisados e transformados em conhecimento para um abastecimento coordenado e com eficiência.
O caminho para reduzir custos invisíveis começa pela visibilidade. É necessário medir o que antes não era medido. Indicadores de retrabalho, de tempo produtivo versus improdutivo, e de conformidade entre planejamento e execução devem fazer parte da rotina de controle. A tecnologia tem papel relevante: inteligência construtiva, sistemas integrados de gestão e plataformas de coleta de dados em tempo real permitem rastrear desvios e antecipar gargalos. Mas a tecnologia, isoladamente, não resolve: o diferencial está em equipes treinadas para interpretar informações e agir preventivamente com tomada de decisão efetiva pautada na Curva ABC de serviços e Insumos, como uma obra possui diversos serviços acontecendo de forma simultânea é interessante que o maior controle seja voltado aos que possuem maior impacto no custo final, parece óbvio, mas não é o que acontece na prática.
Em um setor pressionado por prazos, inflação de insumos e escassez de mão de obra qualificada, cada ponto percentual de eficiência conta. Reconhecer e eliminar custos invisíveis é uma das maneiras mais diretas de recuperar margem sem recorrer a cortes lineares ou renegociações de contrato. A gestão moderna da construção não se limita a medir o custo do concreto ou do aço, mas o custo da descoordenação. E é nesse nível, o da gestão sistêmica, que se define quem constrói apenas obras e quem constrói resultados sustentáveis.
*Engenheira Civil com experiência sólida em planejamento, fiscalização, controle de obras e gestão de projetos. Especializada em MBA em Gestão de Projetos em Engenharia/Arquitetura e com formação acadêmica em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Goiás. Profissional versátil com experiência em empresas de construção e atuação, participando de projetos diversos e gerenciamento financeiro. Habilidades em orçamento, qualidade, incorporação imobiliária e gestão de projetos.

