A falta de mão de obra na construção civil tornou-se o principal desafio do setor no Brasil e exige mudanças estruturais no modelo produtivo. A avaliação é de Cezar Valmor Mortari, engenheiro civil, mestre em Engenharia de Produção, vice-presidente do Sinduscon-GO e diretor técnico da IronBuild. Segundo ele, a solução passa pela industrialização dos processos construtivos, com obras mais mecanizadas, limpas e tecnológicas, capazes de atrair novos profissionais, especialmente jovens.
De acordo com Mortari, o setor ainda opera com métodos tradicionais que dificultam a renovação da mão de obra. “A construção não pode continuar sendo feita do jeito que estamos fazendo. Muitas vezes, ainda lembra uma metodologia medieval, com trabalho estafante, poeira, sujeira e exigência física elevada. Isso afasta os jovens”, afirma.
Para o dirigente, a modernização do setor é inevitável. A adoção de pré-fabricação, mecanização e processos industrializados permitiria reduzir o esforço físico, aumentar a produtividade e oferecer melhores salários. “Precisamos de uma construção mais industrializada, mais limpa, mais rápida, com menos gente e com profissionais mais qualificados ganhando mais. Essa é a fórmula para atrair os jovens”, destaca.
Mortari observa que países como Estados Unidos, China e nações europeias já avançaram nesse modelo, e o Brasil precisa acompanhar essa transformação. “O jovem não vai entrar na construção civil se o setor não mudar. Não é uma questão de tempo, é uma questão de transformação do modelo operacional”, reforça.
Problema estrutural
Segundo o vice-presidente do Sinduscon-GO, a falta de profissionais é um problema estrutural, impulsionado por mudanças demográficas e pela maior concorrência entre setores econômicos. Ele aponta que o Brasil vive uma desaceleração no crescimento populacional e praticamente não recebe fluxos migratórios relevantes, o que reduz a entrada de novos trabalhadores no mercado.
“Antes, era natural que jovens começassem a vida profissional na construção civil. Hoje, isso não é mais verdade. A economia se sofisticou e surgiram muitas opções. A construção precisa disputar esse profissional raro com outros setores”, explica.
Mortari ressalta que, embora questões como juros, tributação e regulação sejam desafios importantes, a falta de mão de obra é mais difícil de resolver. “Esses outros fatores podem ser ajustados mais rapidamente. Já a escassez de profissionais exige mudanças profundas e de longo prazo”, afirma.
Qualificação profissional
Outro ponto destacado pelo especialista é a necessidade de ampliar a qualificação profissional, especialmente com treinamentos realizados diretamente nos canteiros de obras. Ele cita a atuação de instituições como o SENAI, vinculadas à FIEG e à CNI, que vêm desenvolvendo iniciativas nesse sentido.
“O sistema de qualificação em canteiro é uma das melhores soluções, porque é prática, rápida e eficiente. Isso já está sendo feito, mas precisa ser ampliado e aprimorado”, observa.
Futuro do setor
A escassez de mão de obra, segundo Mortari, atinge todos os níveis da construção civil, desde trabalhadores iniciantes até engenheiros seniores. Entre os profissionais mais demandados estão pedreiros, carpinteiros, soldadores, montadores, pintores, instaladores, técnicos de segurança, topógrafos e engenheiros de diversas especialidades.
“Não falta gente apenas em uma função específica. Falta em todas as áreas operacionais, desde o entrante até o engenheiro sênior. Quem põe a mão na massa está em falta”, afirma.
Para Mortari, a solução depende de uma mudança de postura das próprias empresas do setor. “Não é o trabalhador que vai mudar. Quem precisa mudar são as empresas da construção civil. Só assim conseguiremos atrair novos profissionais e garantir o futuro do setor”, conclui.

