Camila Storti, CEO da Abissal Capitalismo Saudável, em foto de perfil com blusa branca e logo da empresa ao fundo.

O mercado imobiliário brasileiro vive uma transformação estrutural. A sustentabilidade deixou de ser um diferencial de marketing para se tornar uma exigência de acesso a crédito, condições financeiras privilegiadas e competitividade comercial. Bancos privados, fundos de investimento e compradores finais passaram a exigir métricas claras de eficiência ambiental e social dos empreendimentos.

Para entender como incorporadoras e construtoras podem navegar esse novo cenário, a Revista Sinduscon entrevistou Camila Storti, Administradora de Empresas com especialização em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável, CEO da Abissal Capitalismo Saudável — consultoria que em 2026 completa 20 anos de atuação ajudando empresas de diversos setores a implementar estratégias de certificação em sustentabilidade e ESG. Embora atue com indústrias variadas, Camila tem acompanhado de perto a jornada de grandes incorporadoras goianas em direção às certificações B Corp, LEED, GBC Brasil e EDGE.

- Você acompanha o mercado imobiliário há duas décadas. Como o ESG deixou de ser um "plus" para se tornar uma exigência de mercado e financeira?

A mudança é estrutural e veio para ficar. Há 20 anos, quando fundei a Abissal, sustentabilidade em construção era restrita a pouquíssimas (e visionárias) empresas do setor, em sua maioria, as empresas reduziam estes conceitos a questões de cumprimento legal ambiental. Hoje, o conceito se sofisticou e se integrou à engenharia financeira dos empreendimentos. O mercado de capitais e o sistema bancário brasileiro, pressionados por regulações internacionais e pela agenda climática, passaram a exigir métricas objetivas de desempenho ambiental e social para, inclusive, conceder crédito.

Esse movimento é impulsionado por três forças simultâneas: a regulamentação do Banco Central do Brasil sobre riscos climáticos (Resolução BCB nº 140/2021 e posteriores), as exigências de taxonomia de finanças sustentáveis da Febraban [Febraban, 2025] e, principalmente, o apetite do consumidor final. O comprador de imóvel de alto padrão — e cada vez mais o de médio padrão — busca edificações que ofereçam eficiência operacional, redução de custos condominiais e menor impacto ambiental. Esse tripé transformou a sustentabilidade de custo de conformidade em vantagem competitiva real.

-  E como as certificações — B Corp, LEED, GBC Brasil, AQUA-HQE e EDGE — se encaixam nesse novo ambiente para construtoras e incorporadoras?

Cada uma dessas certificações oferece um "idioma" diferente para traduzir a sustentabilidade do empreendimento para o mercado. O LEED (Leadership in Energy and Environmental Design) é o selo mais difundido globalmente, avaliando o edifício em categorias como eficiência energética, uso racional da água, materiais sustentáveis e qualidade do ambiente interno [USGBC, 2025]. O GBC Brasil Condomínio é uma adaptação brasileira extremamente robusta, pensada para a nossa realidade construtiva, aplicada a condomínios residenciais verticais ou horizontais [GBC Brasil, 2025].

Já a certificação AQUA-HQE (de origem francesa) é particularmente forte na gestão ambiental da obra, com exigências rigorosas para o canteiro, incluindo planos de gerenciamento de resíduos e controle de emissões [Fundação Vanzolini, 2025]. O EDGE (Excellence in Design for Greater Efficiencies), uma iniciativa da IFC (membro do Grupo Banco Mundial), foca estritamente na redução mínima de 20% no consumo de água, energia e energia embutida nos materiais de construção, com uma plataforma digital ágil e de menor custo de auditoria [IFC/World Bank, 2023; 2025].

Por fim, a Certificação de Empresa B, que acompanhei de perto em diversas construtoras Goianas (como Newinc, FR, Sousa Andrade, por exemplo), é uma certificação que vai além do produto — ela avalia a empresa como um todo: seu propósito, sua governança, suas relações com trabalhadores, comunidade e meio ambiente [B Lab, 2025].

No setor imobiliário, o que temos visto é uma convergência: incorporadoras que buscam o selo B Corp e, simultaneamente, certificam seus empreendimentos com EDGE, LEED ou GBC. Isso gera uma credibilidade dupla — a empresa é íntegra na sua gestão corporativa, e o prédio é comprovadamente eficiente na ponta.

- Um dos principais argumentos contra a adoção de critérios sustentáveis sempre foi o custo. A você pode detalhar a real equação econômica para uma incorporadora ou construtora hoje?

Esse é o mito que mais precisa ser desfeito com dados concretos. Historicamente, atribuía-se um adicional, em média, de 15% no custo de construção para tornar um edifício "verde". Isso não se sustenta mais. De acordo com um levantamento do Green Building Council Brasil [GBC Brasil, 2025], o custo incremental médio para certificar um empreendimento residencial de médio e alto padrão ficou entre 3% e 5% do CAPEX total, podendo ser inferior a 2% em projetos planejados sob conceitos bioclimáticos desde a concepção. No caso do selo EDGE, estudos globais da International Finance Corporation [IFC/World Bank, 2023; 2025] demonstram que o custo incremental médio de construção fica entre 0,5% e 3%, apresentando uma das relações de custo-benefício mais agressivas do mercado internacional para habitação de interesse social e de médio padrão.

A grande virada, no entanto, está no outro lado da equação: o OPEX (custo operacional). Um edifício certificado LEED ou GBC reduz, em média, entre 25% e 35% no consumo de energia elétrica e entre 30% e 40% no consumo de água [CBIC, 2025]. Para o enquadramento no nível básico da certificação EDGE, exige-se uma redução comprovada de no mínimo 20% em energia, água e energia embutida nos materiais [IFC, 2025]. Para um condomínio residencial de médio porte, esse desempenho combinado representa uma economia que pode chegar a R$ 200 mil por ano em taxas condominiais. O retorno do investimento (payback) do custo da certificação e das tecnologias eficientes ocorre em um prazo curto, situado entre 3 e 5 anos [GBC Brasil, 2025; IFC/World Bank, 2023].

- E como isso se traduz em vantagens no financiamento bancário para construtoras?

Aqui está o ponto mais estratégico para o nosso setor. Os bancos privados brasileiros não operam essas linhas de crédito de forma isolada; eles estruturam seus produtos verdes em alinhamento direto com frameworks de organismos multilaterais. Um exemplo disso é a IFC e o Banco Mundial, além de seguir a taxonomia de finanças sustentáveis da Febraban [Febraban, 2025].

A IFC atua globalmente como a principal catalisadora desse mercado, aportando capital de longo prazo e ancorando a emissão de títulos verdes (green bonds) de bancos comerciais, desde que estes utilizem metodologias de comprovação de impacto robustas, como a plataforma EDGE — desenvolvida pela IFC para desriscar carteiras imobiliárias em mercados emergentes [IFC/World Bank, 2023; 2025].

Na prática local, esse respaldo internacional se converte em benefícios palpáveis na ponta para as construtoras goianas. O Itaú BBA [Itaú BBA, 2025] oferece, no seu Plano Empresário Verde, uma redução de spread que pode chegar a 0,7 ponto percentual ao ano para projetos que comprovem a pré-certificação EDGE ou LEED. O Santander Brasil [Santander, 2024] também possui linhas com descontos similares, além da possibilidade de financiar até 90% do valor do imóvel, para adquirentes de unidades em edifícios certificados GBC Condomínio — contra o limite padrão de 80% do mercado tradicional [Banco Central do Brasil, 2023]. O Bradesco [Bradesco, 2025], por sua vez, estabeleceu em seu Framework de Finanças Sustentáveis que empreendimentos com selos de sustentabilidade comprovados podem receber prazos de carência estendidos de 18 para 24 meses na fase de obra.

No fim do dia, a lógica é simples: a IFC e o Banco Mundial garantem o funding e o rigor técnico global, a certificação EDGE ou LEED atesta a elegibilidade do empreendimento, e os bancos privados nacionais reduzem as taxas porque o risco físico e de transição daquele ativo imobiliário é drasticamente menor. Para uma incorporadora financiando R$ 30 milhões em obra, uma redução de apenas 0,5% ao ano na taxa de juros representa uma economia real superior a R$ 1 milhão ao longo de 5 anos.

- Diante desse cenário, qual o passo prático que uma construtora ou incorporadora deve seguir para acessar esses benefícios?

O processo exige planejamento e disciplina, mas é perfeitamente factível. Vou descrever as seis etapas essenciais que orientamos em nossa consultoria na Abissal:

1. Definição do objetivo e escolha da certificação: O primeiro passo é compreender o perfil do empreendimento. Para um residencial de médio padrão que busca rápida validação bancária, a certificação EDGE é a mais indicada pelo baixo custo incremental (0,5% a 3% do CAPEX) e pela agilidade do processo digital [IFC/World Bank, 2023]. Para empreendimentos de alto padrão corporativo, o LEED ou o GBC Brasil Condomínio oferecem maior abrangência de créditos e reconhecimento internacional. Já para empresas que desejam ser avaliadas como um todo — sua governança, impacto social e ambiental — a certificação B Corp é o caminho.

2. Pré-certificação na fase de projeto: A grande virada de chave ocorre aqui. O projeto arquitetônico e os sistemas prediais (climatização, iluminação, hidráulica) precisam ser concebidos desde o início para atender aos requisitos da certificação escolhida. Para o EDGE, a própria plataforma online permite simular os desempenhos e gerar a pré-certificação. Sem essa etapa, não há enquadramento nas linhas de crédito verde dos bancos [GBC Brasil, 2025; IFC, 2025].

3. Documentação e due diligence técnica: O incorporador precisa organizar um dossiê técnico que comprove as especificações sustentáveis: memoriais descritivos, projetos de eficiência energética, especificações de materiais e sistemas. Os bancos — Itaú, Santander, Bradesco — exigem a apresentação da pré-certificação e, em alguns casos, um Parecer de Segunda Opinião (SPO) emitido por auditoria independente, validando o alinhamento às Green Bond Principles [Febraban, 2025; Bradesco, 2025].

4. Negociação com o banco e obtenção do financiamento: Com a documentação em mãos, a incorporadora ou construtora deve procurar a gerência de crédito imobiliário do banco e apresentar o projeto. As condições preferenciais (spread reduzido, carência estendida, LTV elevado) são formalizadas em contrato. É importante lembrar que os descontos podem estar atrelados a compromissos de desempenho — se a certificação final não for alcançada, a taxa pode retroagir aos patamares de mercado [Itaú BBA, 2025].

5. Execução da obra com gestão ambiental do canteiro: A certificação não é apenas sobre o prédio pronto; o canteiro de obras também precisa ser sustentável. Isso envolve: plano de gerenciamento de resíduos (reciclagem mínima de 60% dos resíduos sólidos, conforme meta do GBC Brasil [GBC Brasil, 2025]), controle de poeira e ruído, uso de água reciclada na obra e treinamento da mão de obra em práticas de construção enxuta (lean construction).

6. Auditoria final e obtenção do selo definitivo: Ao término da obra, uma auditoria independente verifica se o que foi projetado foi efetivamente construído. A emissão do selo definitivo é a chave para a liberação integral das condições financeiras e para a valorização do imóvel no mercado secundário.

 - E quanto ao risco de greenwashing? Como evitar que uma certificação seja apenas um selo de fachada?

O greenwashing é o maior risco reputacional e financeiro para qualquer incorporadora hoje. A melhor blindagem contra isso é a terceirização da verificação. Certificações como LEED, GBC, EDGE e AQUA-HQE exigem auditorias independentes e organismos certificadores credenciados. Quando uma construtora busca o selo B Corp, a auditoria é ainda mais profunda, analisando a cadeia de fornecedores, as políticas trabalhistas e a governança [B Lab, 2025].

O conselho que sempre dou aos nossos clientes é: não tente "cortar caminho". Um projeto mal planejado que não atinge os indicadores prometidos gerará retrabalho e, pior, uma exposição negativa que pode comprometer futuras linhas de crédito. O mercado financeiro está cada vez mais sofisticado em detectar inconsistências entre o discurso e a prática.

- A você conhece profundamente o mercado goiano. Como Goiás está se posicionando nessa corrida pela sustentabilidade imobiliária?

Goiás vive um momento extraordinário. O estado tem um mercado imobiliário pujante, impulsionado pelo agronegócio e pela interiorização do desenvolvimento econômico. Goiânia, em especial, experimentou nos últimos cinco anos uma verticalização intensa, com lançamentos de alto padrão que competem diretamente com os grandes centros do Sudeste.

O que observo é que as incorporadoras goianas mais visionárias já entenderam que a certificação é um diferencial competitivo decisivo. Empreendimentos certificados com selos de eficiência energética e hídrica em Goiânia têm conseguido velocidade de vendas superior em relação a empreendimentos similares não certificados [Sienge, 2026]. O comprador do alto padrão goiano — geralmente um profissional liberal, pecuarista ou empresário do agro — é extremamente informado e valoriza a eficiência operacional e a consequente redução de custos de condomínio e manutenção.

Graças a esse ecossistema, o mercado de financiamento imobiliário verde já é uma realidade plenamente acessível em Goiás. Os bancos privados como Itaú BBA, Santander e Bradesco possuem gerências regionais perfeitamente capacitadas para avaliar e aprovar projetos certificados localmente.

- Olhando para frente, quais são as principais tendências tecnológicas e de materiais que vão transformar os canteiros de obras nos próximos anos?

A revolução está nos materiais e na gestão inteligente do canteiro. A descarbonização do concreto e do aço é a prioridade número um da agenda global. O concreto é responsável por cerca de 8% das emissões globais de CO₂ [IEA, 2024], e o setor de construção brasileiro está sendo forçado a adotar alternativas de baixo carbono — como cimentos com menor teor de clínquer, concreto reciclado e aço produzido com energia renovável.

Nesse contexto, a IFC lançou o padrão EDGE Zero Carbon, que vai além da eficiência energética para exigir a compensação ou eliminação total das emissões operacionais e incorporadas de um edifício [IFC/World Bank, 2025]. Para as construtoras, isso significa que, em breve, não bastará reduzir o consumo de energia; será preciso demonstrar a pegada de carbono de cada material utilizado na obra.

Outra tendência é a Internet das Coisas (IoT) aplicada ao canteiro. Sensores inteligentes já permitem monitorar em tempo real o consumo de água e energia da obra, a geração de resíduos e as condições de segurança dos trabalhadores. Esses dados, integrados a plataformas de building information modeling (BIM), permitem ajustes imediatos que reduzem desperdícios e aumentam a produtividade.

A economia circular também avança rapidamente. Estudos do Sienge [Sienge, 2026] indicam que canteiros que implementam programas estruturados de reciclagem de resíduos — com triagem de entulho, reutilização de madeira e metais — conseguem reduzir em até 40% o volume de resíduos enviados a aterros, gerando economia direta na gestão de resíduos e potencial receita com a venda de materiais recicláveis.

- Qual a sua recomendação final para os associados do Sinduscon que desejam se antecipar a esse futuro?

Minha recomendação é clara: não esperem a regulamentação chegar para agir. O mercado já está se movendo, e os primeiros a se posicionarem colherão os maiores benefícios — crédito mais barato, maior velocidade de vendas, clientes mais fiéis e uma reputação de marca valiosa.

Do ponto de vista prático, sugiro que cada construtora e incorporadora realize, ainda em 2026, um diagnóstico de maturidade ESG de seus processos e empreendimentos. Identifique quais certificações são mais viáveis para o seu portfólio e inicie o processo de capacitação de suas equipes técnicas.

O futuro da construção civil já começou. As empresas que entenderem que sustentabilidade não é despesa, mas sim o melhor investimento para a próxima década, serão as que liderarão o mercado nos próximos 20 anos.

Referências Citadas

  • Banco Central do Brasil. (2023). Relatório de Estabilidade Financeira – Riscos Climáticos e Regulação Prudencial. Brasília: BCB.
  • B Lab. (2025). Certificação de Empresas B: Padrões e Processos de Avaliação. Disponível em: https://www.bcorporation.net
  • (2025). Framework de Finanças Sustentáveis do Bradesco. São Paulo: Bradesco S.A. Disponível em: https://assets.bradesco/content/dam/portal-bradesco/assets/classic/pdf/sustentabilidade/Financas_Sustentaveis-Framework.pdf
  • CBIC – Câmara Brasileira da Indústria da Construção. (2025). Desempenho Energético e Hídrico de Edificações Certificadas no Brasil. Brasília: CBIC.
  • Febraban – Federação Brasileira de Bancos. (2025). Taxonomia de Finanças Sustentáveis: Diretrizes para o Setor Bancário Brasileiro. São Paulo: Febraban.
  • Fundação Vanzolini. (2025). Certificação AQUA-HQE: Referencial Técnico para Edificações. São Paulo: Fundação Vanzolini.
  • GBC Brasil – Green Building Council Brasil. (2025). Custo Incremental e Retorno de Investimento em Edificações Certificadas – Relatório Setorial. São Paulo: GBC Brasil.
  • IEA – International Energy Agency. (2024). Global Status Report for Buildings and Construction. Paris: IEA/UNEP.
  • IFC – International Finance Corporation / World Bank Group. (2023). Green Buildings: A Finance and Policy Blueprint for Emerging Markets. Washington, D.C.: IFC.
  • IFC – International Finance Corporation / World Bank Group. (2025). EDGE (Excellence in Design for Greater Efficiencies): Plataforma de Certificação e Padrão Zero Carbon. Washington, D.C.: IFC. Disponível em: https://www.edgebuildings.com
  • Itaú BBA. (2025). Plano Empresário Verde: Condições para Incorporadoras – Guia de Produto. São Paulo: Itaú Unibanco S.A.
  • Santander Brasil. (2024). Linha de Crédito para Prédios Sustentáveis – Reporte de Sustentabilidade 2024. São Paulo: Santander Brasil S.A.
  • (2026). Indicadores de Mercado Imobiliário Sustentável: Velocidade de Vendas e Prêmio Verde. Florianópolis: Sienge/Sênior Sistemas.
  • USGBC – U.S. Green Building Council. (2025). LEED v5: Rating System for Building Design and Construction. Washington, D.C.: USGBC.
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