O engenheiro civil Eduardo Aroeira Almeida chega à presidência da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), triênio 2026-2029, com uma agenda que combina continuidade institucional e novos desafios para um setor em transformação. Empresário do mercado imobiliário e presidente do SECONCI-DF, o novo presidente defende avanços na industrialização, inovação, qualificação profissional e acesso ao crédito, ao mesmo tempo em que aponta a segurança jurídica e o ambiente de negócios como condições essenciais para preservar investimentos e empregos.
Nascido em Brasília e com trajetória construída no associativismo empresarial, Eduardo Aroeira Almeida também destaca a força do Centro-Oeste no cenário nacional da construção. Nesta entrevista, ele fala sobre os primeiros passos da gestão, os impactos da reforma tributária, as perspectivas para habitação e financiamento, a transformação tecnológica dos canteiros e os desafios colocados pela discussão sobre a jornada de trabalho.
Quais as principais prioridades da sua gestão nos primeiros 100 dias?
Nossa gestão será de continuidade e busca por avanços. A CBIC tem atuado junto ao poder público para fomentar uma melhoria no ambiente de negócios e na segurança jurídica, de forma a criar as condições para a manutenção do investimento. Isso é essencial para a geração de emprego e renda, assim como para garantir qualidade de vida desejada pela população. Nosso setor, a despeito das incertezas atuais, continua gerando emprego e contribuindo para o desempenho da economia. Dentre nossas prioridades, está o avanço na industrialização, na pauta de inovação e absorção de novas tecnologias, na melhoria do acesso ao financiamento para o mercado imobiliário, na capacitação da nossa mão de obra dentre outros temas que são estratégicos para o tomador de decisão. Vamos atuar, também, pelo fortalecimento do associativismo, mantendo a integração e coesão de nossas associadas. A agenda de trabalho da CBIC é ampla, para além de 100 dias, e vamos avançar com ela, cada vez mais próximos de nossos associados e empresas em todo o país.
A reforma tributária abre uma janela de oportunidade ou é mais um risco para o incorporador?
A implementação da reforma tributária é um tema estratégico para o nosso setor, com desdobramentos dentro da gestão que se inicia. Nossas empresas estão atravessando o período de transição, adequando processos para atender as novas regras e medindo os impactos do novo arcabouço sobre o negócio. A CBIC acompanha a reforma desde o início, dialogando com o poder público para minimizar os efeitos negativos potenciais e orientando as empresas para que possam se adequar da melhor forma. Seguiremos com esta prestação de serviço, apoiando nossas entidades associadas e as empresas nesse esforço, de forma que a reforma tributária gere os ganhos esperados por todos os brasileiros. Na nossa avaliação, a reforma pode criar as condições para escalar a industrialização da construção brasileira e este é um efeito positivo.
O que muda na relação da CBIC com o governo federal em termos de crédito e habitação?
A relação não muda. No nosso entendimento, cada vez mais é importante dispormos de instrumentos que garantam acesso à casa própria no Brasil. A moradia digna é um direito inscrito na Constituição, o déficit habitacional vem caindo, porém em um ritmo menor que o necessário para tirar da moradia precária ou do aluguel a população que ainda precisa de habitação. Para avançar nesse desafio, será importante fortalecer e ampliar, cada vez mais, políticas públicas destinadas à democratização do acesso à moradia. Nesse campo, o programa Minha Casa, Minha Vida tem um papel importante e a recente inclusão da classe média entre os beneficiários terá um feito positivo não apenas para o setor, como especialmente para a população. Além disso, medidas que ampliem o volume de recursos para produção também farão diferença, dando às empresas condições para fazer mais lançamentos. A CBIC continuará atuando em defesa da preservação dos recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para investimento em habitação, assim como na busca por novas fontes e melhores condições de financiamento para o mercado imobiliário.
Qual é a sua visão para a industrialização da construção e o que a CBIC vai fazer para acelerar isso?
A construção do futuro será industrializada, cada vez mais digital e sustentável. Isso não é previsão, é a constatação de um futuro que já começou e está entre as prioridades da atuação da CBIC. Nosso desafio é criar as condições para escalarmos essa mudança com velocidade, segurança e qualidade. Para isso, é preciso atualizar a formação do engenheiro e do técnico; levar o trabalhador do canteiro para a sala de aula, em maior aproximação com o Sistema S. É fazer do BIM linguagem comum a todos os estratos do setor. ou preparamos nossa gente para o futuro, ou perderemos a janela de oportunidade trazida pela inovação. A CBIC dará passos novos nessa agenda, seja na articulação de políticas públicas – e nosso envolvimento nos grupos de trabalho da Nova Indústria Brasil (NIB) é essencial – seja no estímulo às empresas, por meio de projetos como o Construção 2030, que conduzimos em parceria com o SENAI.
Como você avalia o impacto da redução da jornada de trabalho para o setor?
É muito preocupante e a CBIC atuou em diversas frentes para garantir o debate adequado da medida. A pressão política inerente ao calendário eleitoral impediu uma discussão técnica e aprofundada desse assunto, com um exame responsável dos efeitos sobre o emprego, os custos, os investimentos e a execução de obras públicas e privadas, bem como as particularidades de cada atividade econômica. A CBIC segue mobilizada, em interlocução com o Senado Federal, buscando sensibilizar os parlamentares para que essa discussão aconteça depois das eleições, com mais tempo e baseada em dados técnicos para a melhor decisão.
A Região Centro-Oeste teve dois presidentes consecutivos na CBIC. O que isso representa e o que você espera trazer da região para a entidade?
Esta é a primeira vez que um representante do Distrito Federal, nascido em Brasília, assume essa posição, vindo depois de Goiás. É um reconhecimento importância da nossa região para a construção brasileira, assim como uma tradução da capilaridade e da força da representação da CBIC. Nossa entidade realmente representa e fala pela construção brasileira, aglutinando lideranças de todas as regiões, e essas são marcas da sua força. Penso que ter nascido e viver na região, que conheço bem, me permite um olhar mais próximo da realidade regional e contribuir na costura de soluções e iniciativas que estimule o desenvolvimento do Centro-Oeste, tendo o nosso setor como protagonista.

