Com o avanço do mercado imobiliário e o crescimento urbano acelerado, a construção civil em Goiânia vive um momento de grandes oportunidades e também de grandes responsabilidades. O gerenciamento sustentável dos resíduos da construção se torna um caminho essencial para unir desenvolvimento e respeito ao meio ambiente. A construção civil é reconhecida mundialmente como um dos setores que mais consomem recursos naturais e geram resíduos.
Em Goiânia, o cenário reflete a força desse segmento. Segundo a Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Goiás (Ademi-GO), a capital contabilizou 162 canteiros de obras verticais em 2024, impulsionando o desenvolvimento urbano e a geração de empregos. De acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), Goiânia figura entre os cinco municípios brasileiros que mais criaram vagas no setor no primeiro semestre de 2024. Esse crescimento traz desafios relevantes, especialmente na gestão dos Resíduos da Construção Civil (RCC). Somente em 2024, foram geradas 1.270.551 toneladas de entulho, o que representa cerca de 74,5% de todos os resíduos sólidos urbanos. Esses materiais incluem restos de argamassa, concreto, cerâmica, metais, madeiras, vidros e plásticos. Quando descartados de forma incorreta, causam sérios impactos ambientais e urbanos, como entupimento de galerias pluviais, degradação de mananciais, proliferação de vetores de doenças e aumento dos custos para o poder público.
A Resolução CONAMA nº 307/2002 e a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010) estabelecem as diretrizes e responsabilidades para a gestão dos RCCs. A resolução define quatro classes de resíduos:
Classe A: componentes cerâmicos (tijolos, blocos, telhas, placas), argamassa, concreto e pré-moldados.
Classe B: materiais recicláveis como plásticos, papel e papelão, metais, vidros e madeiras.
Classe C: resíduos sem tecnologia de reciclagem economicamente viável, como produtos de gesso e sacos de cimento.
Classe D: resíduos perigosos, como tintas, solventes, óleos e materiais contaminados.
De acordo com a legislação, os grandes geradores, definidos pelo município como aqueles que produzem mais de 2 m³ de resíduos, são obrigados a elaborar e implementar um Plano de Gerenciamento de Resíduos da Construção Civil (PGRCC). Esse plano deve prever a classificação, separação e destinação ambientalmente adequada dos resíduos, priorizando a reutilização, a reciclagem e o encaminhamento para aterros licenciados.
Nos últimos anos, observa-se um avanço significativo na qualidade da construção civil e na adoção de práticas sustentáveis. Programas de gestão da qualidade, redução de perdas e projetos de economia circular vêm ganhando espaço. Iniciativas locais têm mostrado que o entulho pode se transformar em novos produtos, como blocos ecológicos, brita reciclada e pisos intertravados.
Um dos instrumentos mais promissores é a logística reversa, que permite o retorno de materiais e embalagens à cadeia produtiva, reduzindo o descarte e incentivando a reciclagem. Em Goiânia, várias construtoras já adotam o reaproveitamento de entulho e a destinação correta dos resíduos, em conformidade com as normas da Agência Municipal do Meio Ambiente (AMMA). Quando a separação dos RCCs é realizada corretamente no próprio canteiro de obras, conforme a classificação do CONAMA nº 307/2002, o processo de reciclagem e destinação se torna mais eficiente. Empresas especializadas em Goiás já transformam concreto e argamassa em agregados reciclados, que podem ser aplicados em sub-bases de pavimentação, drenagem, controle de erosão, concretos não estruturais e fabricação de blocos e meios-fios.
A AMMA, em conjunto com outras instituições públicas, tem fortalecido a fiscalização ambiental e o incentivo à gestão responsável dos resíduos. Programas como o Selo de Sustentabilidade, o Programa Amigo Verde e ações como a “Virada Ambiental”, da UFG, promovem a conscientização e o engajamento do setor. Além disso, Goiânia conta atualmente com cinco Ecopontos em funcionamento, destinados à entrega voluntária de resíduos de pequenos geradores (até 2 m³), e mais cinco unidades estão em fase de implantação.
Mas a mudança não depende apenas de políticas públicas; começa dentro dos canteiros de obras. Medidas simples, como a separação correta dos resíduos, o reaproveitamento de materiais, o controle de desperdícios, o treinamento das equipes e o uso racional da água e da energia, podem gerar um impacto ambiental positivo e reduzir custos operacionais. Algumas empresas têm ido além, praticando a curadoria de materiais descartados e destinando itens como louças e pias a projetos sociais e reutilizações criativas, reforçando o conceito de economia circular e responsabilidade social.
A sustentabilidade na construção civil não é apenas uma tendência; é uma necessidade e uma oportunidade. O reaproveitamento e a reciclagem de resíduos proporcionam economia de matérias-primas, redução no consumo de energia e minimização dos impactos ambientais. O futuro do setor passa pela inovação, pela conscientização e pelo planejamento, transformando o desafio dos resíduos em uma oportunidade de crescimento sustentável para Goiânia e para todo o Estado de Goiás.
Zilma Percussor Campos Peixoto, titular da Agência Municipal do Meio Ambiente (AMMA), possui mais de 35 anos de experiência em gestão, tanto no poder público quanto em empresas privadas. Graduada em Direito pela Universidade Federal de Goiás (UFG), possui especialização em Gestão Financeira com ênfase em Mercado de Capitais pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e MBA em Gestão Empresarial pela mesma instituição.
Na esfera privada, Zilma foi supervisora de Atendimento, gerente de Pessoas Físicas e Jurídicas, gerente geral e superintendente Regional Comercial para Goiás do Banco Nacional. Também atuou como superintendente de Agências do Unibanco S/A, além de superintendente Regional Comercial na região de Limeira e Campinas (SP) e no Estado de Goiás, pelo Banco Santander.
No poder público, Zilma foi diretora de Ordenamento Urbano e superintendente de Planejamento e Gestão Sustentável da Secretaria Municipal de Planejamento Urbano e Habitação (Seplanh) em 2017. Coordenou o Grupo Executivo de Revisão do Plano Diretor de Goiânia, integrou o Comitê Técnico de Uso e Ocupação do Solo da Seplanh e foi conselheira do Conselho Municipal de Política Urbana da Prefeitura de Goiânia (Compur). Em seguida, atuou como secretária municipal de Planejamento Urbano e Habitação e também como secretária de Finanças, ambos os períodos durante a gestão Iris Rezende.
Após o fim do mandato, acumulou novas experiências no setor público, entre elas a função de superintendente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea-GO), além de prestar consultorias para empresas, até ser convidada para presidir a Agência Municipal do Meio Ambiente (AMMA).